Polêmica: a categoria de Melhor Filme Popular no Oscar

Polêmica: a categoria de Melhor Filme Popular no Oscar

O que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas quer?


A iniciativa de criar uma categoria de “filmes populares” no Oscar não foi bem recebida por alguns dos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

“Sinto que essas mudanças constantes são problemáticas”, disse um votante não identificado à Variety. A principal reclamação é de que a decisão não passou por todos os membros, tendo sido estabelecida por um comitê e depois aprovada pela mesa diretora da instituição visando aumentar a audiência da cerimônia de premiação. A sugestão teria vindo da própria ABC, canal que exibe o Oscar e pertence a Disney.

James Schamus, CEO da Focus Features, não fez questão de se manter anônimo, usando o Twitter para ironizar a notícia: “Empolgado que a Academia vai entregar o Oscar de Filme Popular durante o seu próprio comercial no intervalo do Super Bowl, garantindo assim a maior audiência possível”. O ator Rob Lowe também não escondeu seu desgosto nas redes sociais e foi categórico: “A indústria do cinema morreu hoje com o anúncio da categoria do Oscar de filme ‘popular’. Esteve com a saúde debilitada por muitos anos, sobreviveu às sequências, franquias e à integração vertical”. 

Adam McKay, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por A Grande Aposta e que deve aparecer entre os candidatos desse ano com a cinebiografia de Dick Cheney estrelada por Christian Bale, fez piada da situação: “Outras categorias novas do Oscar: Melhor Filme em que jogaram m*rda no ventilador; Alien fêmea mais gostosa; Melhor mortal de costas para escapar de uma faca; Melhor jogada de faca; Melhor ‘você achou que ele tinha morrido, mas agora ele voltou e realmente quebra tudo'”. 

Depois da primeira dose de comentários negativos, a Academia divulgou um comunicado para esclarecer que todos os filmes são elegíveis tanto para Melhor Filme, como para Filme Popular, podendo receber indicações nas duas modalidades. Os critérios da nova categoria, porém, não foram determinados. O que torna um longa o Melhor Filme Popular? É uma questão de bilheteria? De gênero? O “popular” é inferior ao “filme de arte”? E se um filme é popular, o outro é automaticamente impopular? Ou a Academia só quer mesmo lucrar com o apelo de filmes como Mulher-Maravilha, Pantera Negra e Vingadores: Guerra Infinita sem comprometer a sua “integridade artística”? O fato da sugestão da nova categoria ter partido da ABC fez muita gente achar que a Disney cansou de tentar emplacar seus sucessos de bilheteria nas categorias principais, partindo para a criação de uma categoria própria.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas precisa divulgar muitas respostas em breve para que a sua tentativa de modernização não crie ainda mais barreiras com o público. O Oscar precisa celebrar o cinema em todas as suas formas, não dividi-lo. Há um motivo simples para que filmes sem tanto apelo comercial ganhem mais atenção nas categorias do Oscar: necessidade. Cinema, antes de indústria, é arte e a atenção dada pelo Oscar garante que importantes histórias sejam contadas e vistas. Assim, filmes como Me Chame Pelo Seu Nome e Lady Bird ganham visibilidade e garante a sua distribuição. Já um blockbuster, independente do seu valor artístico, não precisaria dessa vitrine.

A estatueta seria nesse caso mero certificado de qualidade dado pela elite da indústria cinematográfica para algo que já teve seu valor confirmado pelo público. Ao mesmo tempo, seguindo a lógica da ABC, a possibilidade do espectador ligar a TV para ver o Oscar é muito maior se o filme que ele já ama está entre os indicados, em oposição a ver uma apresentação em torno de títulos desconhecidos.

O Oscar faz parte da vida de quem ama cinema. Deveria ser uma celebração, ainda que seja constantemente interpretada como uma competição televisionada. Ao longo dos anos, a Academia reconheceu e corrigiu problemas e já se mostrou aberta a abraçar o cinema como um todo, seja incluindo animações nas categorias principais, entregando 6 Oscars para a ousadia de Mad Max: Estrada da Fúria ou premiando a mistura de terror, ficção científica e comédia de Corra! e o amor pelos monstros de Guillermo del Toro com A Forma da Água.

O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, terceiro filme de uma lucrativa adaptação cinematográfica de um livro de fantasia, ainda é um dos maiores vencedores da honraria com 11 estatuetas. Se a nova categoria existisse na época, o longa de Peter Jackson levaria 12 estatuetas? Ou deixaria de levar Melhor Filme e ficaria só com Filme Popular? É um prêmio que não faz muito sentido além do seu motivo descarado: a Academia quer levar os heróis para o Oscar, mas sem perder a sua postura de elite artística. Quer ser popular, mas continua a se julgar melhor do que o público. É um movimento que não serve nem para o cinema pipoca, nem para o independente, que sai com cara de inacessível dentro dessa diferenciação – ao povo, os filmes populares, aos artistas, o verdadeiro cinema. É justamente essa barreira que um evento com o alcance do Oscar deveria romper. Ironicamente, quem perde é o público.

A cerimônia de entrega do Oscar 2019 será em 24 de fevereiro.

 

Fonte: Omelete

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